IA Camp 2026 juntou Governo, poder local e empresas em Carregal do Sal para pôr a Inteligência Artificial ao serviço das pessoas
Carregal do Sal, 14 de outubro de 2026 - A primeira edição do IA Camp – Inteligência Artificial na Administração Pública: Desafios e Oportunidades terminou esta quarta-feira, em Carregal do Sal, com um debate centrado no potencial da Inteligência Artificial (IA) para modernizar os serviços públicos, simplificar procedimentos e melhorar a resposta aos cidadãos. Entre os principais destaques esteve o anúncio do Governo de um programa de formação em IA para a Administração Pública, com arranque previsto para dezembro, integrado na Agenda Nacional de Inteligência Artificial.
Promovido pela Câmara Municipal de Carregal do Sal, em parceria com a Associação Observatório das Autarquias Locais e a Skilltech, o encontro decorreu nos dias 13 e 14 de outubro, no Centro Cultural de Carregal do Sal, e juntou representantes institucionais, especialistas e profissionais para partilhar experiências, apresentar soluções tecnológicas e discutir os desafios associados à adoção da IA no setor público.
Na sessão de abertura, o Secretário de Estado para a Simplificação, Paulo Magro da Luz, anunciou que o programa de formação, desenvolvido em preparação com o Instituto Nacional de Administração (INA), deverá arrancar em dezembro. Segundo as estimativas do Executivo, o esforço de capacitação associado à Agenda Nacional de IA deverá abranger cerca de 2,8 milhões de portugueses.
O governante destacou ainda a simplificação, a digitalização, a articulação e a responsabilização como eixos da reforma do Estado, abordando medidas legislativas com impacto na contratação pública e no funcionamento da Administração Pública.
Da estratégia à aplicação prática
Ao longo dos dois dias, o IA Camp procurou aproximar a discussão sobre Inteligência Artificial dos desafios concretos enfrentados pelas organizações públicas, através de
mesas-redondas, demonstrações tecnológicas e uma masterclass dedicada à preparação das organizações para a utilização destas ferramentas.
Um dos exemplos apresentados foi a DINA, a operadora digital desenvolvida pelo Município de Carregal do Sal em parceria com a Synertia. Disponível para atender chamadas telefónicas durante 24 horas por dia, a solução consegue resolver autonomamente cerca de metade das questões que recebe, encaminhando as restantes para os serviços competentes, com a informação organizada. O município prevê alargar a sua utilização ao portal institucional e ao WhatsApp.
Também a plataforma Datalink, apresentada pela Safeminds, demonstrou como a IA pode apoiar a gestão de contratos públicos, desde o acompanhamento de procedimentos à consulta de legislação e à preparação de textos de fundamentação. A assistente virtual Clara permite identificar tarefas pendentes e procedimentos parados, disponibilizando informação de suporte às equipas.
As demonstrações evidenciaram o potencial destas ferramentas para reduzir tarefas administrativas repetitivas e apoiar a tomada de decisão, sem dispensar a intervenção e a responsabilidade humanas.
Na mesa-redonda dedicada à IA na Administração Pública Local, Izabel Azevedo, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal, sintetizou um dos princípios centrais do encontro “a tecnologia deve servir as pessoas e não substituir as pessoas”.
A responsável sublinhou também a importância de preservar a relação entre os serviços públicos e os cidadãos, alertando que os ganhos de eficiência não devem comprometer a proximidade que caracteriza a Administração Local.
Preparar as organizações para a Inteligência Artificial
A capacitação dos trabalhadores e a identificação de oportunidades de automatização estiveram igualmente em destaque na masterclass “Fluxos de Trabalho – Como Preparar Organizações para a IA”, conduzida por Rita, da Visor AI.
A sessão incentivou os participantes a reconhecer tarefas repetitivas que possam beneficiar da automatização, demonstrando como uma utilização mais estruturada das ferramentas de IA pode libertar tempo para atividades de maior valor acrescentado.
A mensagem foi clara, a adoção da tecnologia deve começar por necessidades concretas e processos identificados, em vez de depender exclusivamente de grandes projetos de transformação digital.
Regulamento Europeu da IA exige preparação antecipada
O segundo dia terminou com uma mesa-redonda dedicada ao Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (AI Act) e às suas implicações para a Administração Pública Local.
A sessão reuniu a Drª Susana Rios de Oliveira, da UinLegal Partners, o Professor Dr. José Silva Lopes, professor e advogado, João Andrade, da Skilltech, e Paulo Vieira, da Netskope.
Os especialistas abordaram as obrigações das entidades públicas na utilização de sistemas de IA, a proteção de dados pessoais, a relação com os fornecedores e a necessidade de garantir mecanismos efetivos de supervisão humana.
João Andrade alertou para a importância de as organizações identificarem os sistemas de IA que já utilizam, os responsáveis pela sua utilização e os dados envolvidos, defendendo que a preparação não deve ficar dependente dos prazos de aplicação das novas regras europeias, “Não temos que esperar por 2027”, afirmou.
José Silva Lopes salientou que a supervisão humana exige conhecimento efetivo do funcionamento dos sistemas e dos critérios utilizados, não podendo limitar-se a uma validação formal. Por sua vez, Susana Rios de Oliveira destacou a necessidade de clarificar as responsabilidades das entidades públicas, dos fornecedores e dos trabalhadores, bem como de assegurar formação adequada e mecanismos de responsabilização.
Paulo Vieira chamou a atenção para os riscos associados à utilização de ferramentas de IA, em particular quando são introduzidos dados pessoais ou informação interna das organizações sem garantias adequadas de segurança.
Como síntese da discussão, os participantes identificaram cinco passos essenciais para uma utilização responsável da IA: inventariar, classificar, regular, formar e registar. O objetivo é assegurar que a adoção destas tecnologias seja acompanhada de medidas concretas de controlo, segurança e transparência.
Inovação e valorização do território
O programa incluiu ainda uma componente de valorização do território, com uma prova de vinhos do Dão que reuniu sete produtores e proporcionou um momento de partilha entre participantes e agentes económicos da região.
A iniciativa reforçou a ligação entre inovação e identidade local, dando visibilidade à produção vitivinícola e ao património do concelho. A componente social do encontro integrou também um jantar com produtos regionais e momentos de animação.
Durante o evento, o Município apresentou igualmente a UVI, uma figura virtual criada para acompanhar os participantes através de um código QR, permitindo o acesso à biblioteca digital municipal e a conteúdos sobre o território. A solução ilustrou a utilização de ferramentas digitais para facilitar o acesso à informação e reduzir a dependência de materiais impressos.
Um espaço de partilha para o futuro da Administração Pública
Na sessão de encerramento, Bartolomeu Noronha, do Observatório das Autarquias Locais, agradeceu a participação dos oradores, das entidades envolvidas e do público, destacando a importância do contacto direto com os profissionais que enfrentam diariamente os desafios da Administração Pública.
A primeira edição do IA Camp encerrou, assim, com o propósito de dar continuidade à partilha de conhecimento e de boas práticas sobre a utilização da Inteligência Artificial nos serviços públicos, promovendo uma adoção informada, responsável e orientada para as necessidades dos cidadãos.